Romance
Gladson
Sérgio Camargos
Edições Zopyra
Em breve

Gladson

Um romance sobre a pergunta que todo mundo carrega — e quase ninguém faz.

Para que você acorda todos os dias?Não responda rápido. É justamente a resposta rápida que este romance veio incomodar.

Quase ninguém tem tempo para essa pergunta. Sempre há uma conta para pagar, um ônibus para pegar, uma urgência qualquer — e a pergunta fica para depois. A vida inteira é esse "depois".

Gladson da Silva de Jesus dos Santos Reis também não tinha tempo. Trabalhava num depósito, almoçava marmita, voltava de ônibus lotado. E toda semana, religiosamente, trocava o preço do almoço por um bilhete de loteria — não porque acreditasse na matemática, mas porque a esperança, ele havia descoberto, alimenta por mais dias do que a comida.

Até a noite em que os seis números saíram. Os dele.

O que acontece com um homem quando o impossível acontece — isso é assunto do livro, não desta página. O que podemos dizer é o seguinte: Gladson vai descobrir que o destino, quando resolve dar, cobra na entrega. E que existe um tipo de pergunta que dinheiro nenhum compra o direito de não ouvir.

Por que ler

Porque é filosofia sem aula de filosofia. As grandes questões — o sentido, a morte, a felicidade, a ilusão — não aparecem aqui em sermões: aparecem num gesto, num silêncio, numa conversa à mesa. Você está rindo de uma cena e, três linhas depois, percebe que a piada era sobre você.

Porque é escrito na grande tradição da ironia brasileira. Um narrador que conversa com o leitor, que provoca, que finge consolar para melhor desconcertar. Quem ama Machado de Assis reconhecerá o registro à primeira página; quem nunca o leu vai descobrir por que essa voz nunca envelheceu.

Porque é um espelho, não um manual. Não há aqui dez passos para uma vida com propósito. Há algo mais raro: um romance que faz a você, página a página, a pergunta que você vem adiando — e tem a elegância de não responder por você.

Sobre o livro

Uma comédia que dói. Uma fábula filosófica disfarçada de sátira social. E, no centro dela, um homem comum diante da coisa mais incomum que existe: tempo e silêncio suficientes para se perguntar para que serve a própria vida.

Você vai rir de Gladson. Vai torcer por Gladson. E vai fechar o livro com uma suspeita incômoda: a de que a diferença entre você e ele talvez seja apenas um bilhete premiado.


Leia o início

Capítulo I

O batismo, ou a ironia no registro civil

Chamava-se Gladson da Silva de Jesus dos Santos Reis — nome que carregava, sem o saber, toda a ironia de seu destino. Glad son, diriam os ingleses: filho feliz. Feliz por qual motivo, perguntaria o leitor impaciente. Tenha calma; a seu tempo, tudo se revelará. Por ora, basta saber que Gladson, batizado com esperança de alegria por pais que pouco tinham a oferecer além de nomes, nascera pobre.

E a pobreza, caro leitor, também se transmite geneticamente — não no sangue, como a hemofilia ou a cor dos olhos, mas na falta de tudo aquilo que o sangue deveria carregar: educação, oportunidades, esse capital invisível que os ricos herdam ainda no útero, quando a mãe abastada, com a fina nutrição adequada, já trata de legar ao feto a saúde e a vitalidade precisas, ao mesmo tempo em que se negocia a vaga na escola certa e os pais desenham, em conversa de jantar, o futuro brilhante do rebento.

Permita-me, antes de prosseguir com a história, deter-me um instante — considerável instante, aviso — neste nome, pois nomes não são acidentes: são profecias, maldições, ou, no caso do nosso protagonista, uma piada de gosto duvidoso que o destino pregou em sua certidão de nascimento.


Gladson. A mãe, Maria de Fátima — nome tão comum que dispensava sobrenome —, escolheu ouvindo rádio numa tarde de domingo. Estava grávida de sete meses, passando roupa em barraco da zona leste de São Paulo, quando o locutor mencionou um jogador americano: Gladstone, ou coisa parecida. O nome atravessou a janela aberta, misturou-se ao cheiro de sabão e poeira, e pousou no ouvido de Maria como revelação divina. Não sabia o significado, não conhecia a origem, mas achou bonito. Moderno. Nome de gente que vence na vida. Cortou o stone — pedra, em inglês, mas isso ela não sabia — e ficou com Glad. Adicionou o son porque na novela das oito havia um personagem importante chamado Anderson, e o son no final parecia conferir distinção.

Pronto: Gladson. Glad son. Filho feliz.

A ironia é que glad, em inglês, significa exatamente isso: feliz, contente, alegre. Maria, religiosa fervorosa que consultava a Bíblia, mas não o dicionário, destinou o filho à felicidade sem desconfiar que o batizava literalmente com a própria palavra — coincidência que talvez justifique, sozinha, a tese de que as mães rezam melhor do que sabem.

Da Silva. Este dispensava explicações. Herança paterna, a mais democrática das heranças brasileiras: o sobrenome de quem, dizem, não tem sobrenome. Silva como João, como Maria, como as estrelas no céu — incontáveis, indistinguíveis. O pai, Severino da Silva — outro nome profético, severino, o nordestino que vem enfrentar a severidade do mundo —, contribuiu com o que tinha: anonimato genético. Entre milhões de Silvas, como se destacar? Impossível. A não ser pelo crime ou pela fortuna — e Severino não tivera nem uma coisa nem outra, apenas a sina de ser mais um.

De Jesus. A cereja do bolo onomástico, ou assim pensava Maria, que ainda não sabia o que viria a seguir. Se o menino levaria nome estrangeiro — ou que soava estrangeiro, ao menos —, que levasse também o nome do Salvador. Proteção divina. Bênção inscrita. De Jesus como talismã contra a miséria, como se o Nazareno, ele próprio nascido em estábulo, pudesse blindar o rebento contra destino similar. Note-se, contudo, que nem o próprio Jesus escapou da pobreza, da perseguição e da morte violenta — o que torna a proteção invocada pelo sobrenome não apenas simbólica, mas, diremos com delicadeza, de eficácia historicamente contestável.

Dos Santos Reis. Aqui chegamos ao acréscimo que nenhum planejamento materno havia previsto, ao nome que o próprio calendário impôs com a tirania dos que não pedem licença.

Gladson nasceu na madrugada de seis de janeiro, dia em que a tradição cristã celebra a chegada dos Três Reis Magos do Oriente ao estábulo de Belém — esses homens de ciência e de fé que cruzaram o deserto guiados por uma estrela, carregando ouro, incenso e mirra para depositar aos pés de um recém-nascido que, segundo a profecia, viria a ser rei. Magos ricos, presentes simbólicos, criança pobre.

Maria de Fátima, ao saber a data exata do parto — que se precipitara dois dias antes do previsto, como se o próprio Gladson tivesse pressa em inaugurar sua coleção de ironias —, não hesitou. Consultou a vizinha, a benzedeira da esquina e, por fim, o padre, que confirmou: seis de janeiro, sem sombra de dúvida, era dia de Santos Reis. A conclusão foi imediata, com a lógica irrepreensível de quem nunca precisou de segunda opinião sobre assuntos de fé: o menino haveria de chamar-se dos Santos Reis. Porque nascera no dia deles. Porque era um sinal. Porque os Reis trouxeram presentes ao Menino Jesus, e quem sabe — pensou Maria, com aquela esperança que os pobres cultivam como única lavoura — não trouxessem também algum presente para o seu Gladson.

Havia, naquele nome comprido, uma promessa coletiva e inoperante: a alegria dos ingleses, o anonimato dos Silvas, a proteção do Nazareno e a generosidade dos Magos. Quatro promessas. Quatro fiadores. E nenhum que aparecesse para honrar o compromisso.


A esposa, com a força de quem luta para não se afogar, estava sempre otimista, sempre esperançosa. Severino, sentado, olhando para o chão, esgoto correndo sob o sol e a poeira, pensava:

— Esperança. A última que mata.

Tinha visto, desde a infância, vários homens morrerem possuindo apenas isso.

Este é apenas o início do Capítulo I. Gladson será publicado em breve pelas Edições Zopyra. Deixe seu e-mail para ser avisado do lançamento.
Há perguntas que nenhuma fortuna cala.

Este romance é sobre a maior delas.

Sérgio Camargos · Edições Zopyra